A sessão ordinária da Câmara Municipal de Cuiabá foi marcada por um duro embate político. Em um pronunciamento contundente na tribuna, a vereadora Katiuscia Manteli fez severas críticas ao prefeito Abílio Brunini, acusando o chefe do Executivo de tentar interferir na autonomia do Poder Legislativo e nas decisões internas da Casa.
O discurso ocorreu em meio às discussões envolvendo mudanças no Regimento Interno da Câmara e a disputa política em torno da composição da Mesa Diretora. Durante sua fala, a parlamentar afirmou que não aceitará qualquer tentativa de interferência do Executivo em assuntos que, segundo ela, são de competência exclusiva dos vereadores.
“Não vou aceitar que o prefeito Abílio tente interferir nas decisões da Câmara dos Vereadores de Cuiabá”, declarou.
Katiuscia destacou sua trajetória na defesa da participação feminina na política e afirmou ter orgulho de integrar a primeira Mesa Diretora composta exclusivamente por mulheres. No entanto, fez questão de separar a defesa das pautas femininas das disputas políticas envolvendo a direção da Câmara.
“Tenho orgulho de ter feito parte da primeira Mesa Diretora formada apenas por mulheres e sou uma defensora firme das pautas femininas. Por isso, não vou permitir que usem desse argumento para forçar uma situação. Sobretudo, não vou deixar que o prefeito tente impor, na canetada, as decisões que cabem ao Legislativo.”
A vereadora reforçou que a Câmara precisa manter sua independência institucional para exercer plenamente suas funções constitucionais, especialmente a de fiscalizar os atos da administração municipal.
“A Câmara Municipal representa diretamente o povo. Ela precisa ser livre, independente e forte, inclusive para fiscalizar a administração do prefeito. A Câmara é livre e continuará sendo. Porque o povo é livre e não vai se curvar aos mandos e desmandos de um prefeito que não sabe ouvir um ‘não’.”
Durante o pronunciamento, Katiuscia também questionou o que classificou como uma mudança de postura do prefeito em relação às alterações no Regimento Interno da Casa. Segundo ela, anteriormente Abílio teria recorrido à Justiça contra propostas semelhantes e, agora, estaria defendendo uma posição diferente.
“Prefeito Abílio, qual o seu interesse de interferir na Justiça agora para que se mude o regimento? Até hoje nós nos silenciamos aqui nessa Casa. Todas as vezes nessa luta pela Mesa nós fomos acusadas lá fora de não apoiarmos mulheres por participarmos de um outro grupo político. Mas eu não vou me calar diante de um discurso demagogo, de um discurso vago de que a gente não apoia a presidente Paula porque nós somos contra mulheres.”
A parlamentar ainda afirmou que continuará defendendo a participação feminina nos espaços de poder, mas criticou o que considera uma utilização política dessa pauta.
“Pena que essa mesma decepção não valeu com a denúncia de assédio lá na Prefeitura. Só vale aqui quando nós tomamos as nossas decisões. Eu sempre vou defender as mulheres aqui e sempre vou defender para que elas ocupem espaços de decisão e espaços de poder.”
Em outro momento do discurso, Katiuscia voltou a cobrar explicações sobre a atuação judicial do prefeito em relação às mudanças regimentais.
“O senhor impetrou um mandado de segurança contra um projeto de resolução que previa mudar o regimento dessa Casa e que previa a reeleição. O que mudou de lá para cá? Qual o seu interesse de interferir na Justiça agora para que se mude o regimento? É uma ação desesperada, não tem sentido, não tem significado. Nós fomos eleitos para ser vereador, o senhor foi eleito para ser prefeito.”
Utilizando uma comparação com sua experiência como mãe, a vereadora fez uma das declarações mais incisivas da sessão.
“Eu sou mãe, isso para mim é atitude de criança mimada que não sabe ter um ‘não’. Não conseguiu mudar o regimento, vou na Justiça. Não consegui mudar o lote, baixo um decreto.”
Ao encerrar o pronunciamento, Katiuscia afirmou que esperava uma relação de cooperação entre os poderes, mas disse que a postura adotada pelo Executivo demonstra falta de reconhecimento da importância institucional da Câmara Municipal.
“Não é assim que funciona. Eu estou acostumada a dar ‘não’ para os meus filhos e a manter o ‘não’ quando eles fazem birra. Era para estarmos fazendo um trabalho de parceria, mas o senhor deixou claro que não precisa dessa Câmara. Se o senhor não precisa dessa Câmara, nós vamos ter que trabalhar sozinhos também.”
As declarações repercutiram entre os parlamentares e ampliam o clima de tensão política entre parte dos vereadores e o Executivo municipal, em um momento de intensos debates sobre a autonomia do Legislativo e as regras internas que disciplinam o funcionamento da Câmara de Cuiabá.



















